Religião é Veneno
1. Como os ateus não acreditam que exista um Deus ao qual terão que prestar contas de seus atos, consideram-se livres para fazer o mal conforme assim o queiram.
Esta idéia errada diz mais sobre quem a defende do que sobre os ateus. Quem utiliza este argumento demonstra acreditar que a motivação decisiva para não fazer o mal seja o temor do castigo divino, revelando assim falta de confiança nos próprios princípios morais.
2. Não existem ateus e sim pessoas revoltadas com Deus.
Na base desta idéia errada está a intenção de apresentar a existência de Deus como impossível de ser negada, logo ateus não poderiam existir. A fragilidade do argumento reside em que a existência de ateus, por si só, o desmente.
3. Ateus fingem não sentir necessidade de Deus em suas vidas.
Esta idéia errada é curiosa, dado que quem a defende se arroga de conhecer melhor as necessidades dos ateus que os próprios. A premissa inválida (para não dizer idiota) que sustenta esta idéia é "o que me é necessário é necessário para todos". Correto quando falamos de oxigênio e água. Estúpido quando tratamos de religião.
4. Ateus não se preocupam com seus semelhantes.
Esta idéia errada pode partir da premissa correta de que o altruísmo não é um princípio do ateísmo. O raciocínio usado deliberadamente ignora que o único princípio do ateísmo é a descrença na existência de Deus. O posicionamento de cada ateu quanto ao seu grau de preocupação com os semelhantes se dá portanto fora da abrangência da definição de ateísmo e se manifesta em instâncias autônomas a esta definição. A idéia errada também pode partir da premissa incorreta de que os religiosos tem o monopólio da virtude.
5. Ateus não acreditam em nada.
Idéia errada tanto na proposta quanto na formulação. A formulação mais adequada da idéia seria "ateus não tem fé em nada" e mesmo assim seria incorreta, dado que o ateísmo exclui apenas a fé em Deus.
6. Ateus o são por conta de seus corações duros, que os tornam insensíveis às manifestações do Espírito de Deus.
Idéia errada muito usada por cristãos evangélicos, com base em passagens bíblicas, como Zacarias 7:12:
Sim, fizeram duro como diamante o seu coração, para não ouvirem a lei, nem as palavras que o Senhor dos exércitos enviara pelo seu Espírito mediante os profetas antigos; por isso veio a grande ira do Senhor dos exércitos.
Esta idéia errada não mereceria maior atenção exceto por permitir uma sub-leitura com conteúdo implícito verdadeiro: A Fé cristã popular é fortemente passional. Ateus que subordinam a formação de suas opiniões e crenças ao ceticismo e ao racionalismo se empenham em restringir a influência das paixões neste processo, sendo de certa forma correto dizer que seus corações são duros às mensagens religiosas cuja aceitação exige cumplicidade emocional.
Cabe a ressalva que, no contexto de Zacarias 7, "dureza de coração" pode ser entendido como perversidade, significado que muitas vezes se aplica à intenção dos evangélicos quando usam este verso para se referir aos ateus, enquanto a análise do parágrafo acima considera "dureza de coração" com significado mais próximo de insensibilidade, indiferença aos conteúdos emocionais da mensagem religiosa.
De qualquer modo, a idéia é errada pelo fato de os ateus não serem necessariamente racionalistas e céticos, além do que, a associação de ateísmo e perversidade não merece sequer ser comentada.
7. Ateus são arrogantes.
Idéia errada geralmente baseada no pressuposto não justificado de que a descrença na existência de Deus é uma arrogância por si só.
Para que a idéia fosse defensável como verdadeira seria necessário que se baseasse numa demonstração estatística de que a arrogância é significativamente comum entre os ateus a ponto de poder ser apontada como uma característica deles ou demonstrar o mecanismo pelo qual o ateísmo promove este comportamento específico em seus adeptos.
8. Ateus deixam de sê-lo em momentos de desespero (não existem ateus num avião em pane).
Idéia errada pelo fato de que um momento de desespero pode gerar atos desesperados (o que pode incluir pedidos de socorro a entidades cuja existência não se crê quando em estado normal), mas não pode por si só gerar a crença em um Deus em quem não é predisposto a isto. Quanto ao avião em pane, faz sentido relativo que nestes momentos os religiosos rezem pedindo ajuda divina, enquanto é absurdo esperar que um ateu reaja com gritos de "Deus não existe e vamos todos morrer", logo, são mais compreensíveis as manifestações religiosas do que ateístas nestes momentos fatídicos.
9. Ateus tem fé religiosa em seu ateísmo.
Idéia errada pelo fato de o ateísmo não ser uma doutrina e portanto não ter como alimentar uma fé religiosa.
10. Ateus não tem valores morais absolutos, já que não aceitam um Deus ou uma fé que os valide.
Idéia errada, mas um pouco mais desafiante que as anteriores. De fato a validação de valores morais como absolutos exige fé, já que todos os valores fundamentados na lógica são necessariamente relativos.
Esta fé, entretanto, não tem que ser necessariamente baseada em alguma revelação divina que diga quais valores são absolutos e quais não.
Posso ter a vida humana inocente como valor absoluto e ter como imoral tudo que atente contra ela. Posso apresentar premissas que validem esta conclusão, mas não posso provar a validade das premissas. Minha crença de que a vida humana inocente é um valor absoluto se mostra então como uma confissão de fé.
Só que Deus não faz parte dela.
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